Perda auditiva e demência: uma relação silenciosa que merece atenção
- Mariana Favoretto
- 27 de abr.
- 4 min de leitura
Você já parou para pensar que a dificuldade para ouvir pode estar relacionada a prejuízos que vão muito além da audição?
A perda auditiva costuma ser vista como uma consequência natural do envelhecimento mas evidências recentes mostram que essa percepção pode estar errada. Existe uma relação entre perda auditiva e demência, muitas vezes silenciosa e subdiagnosticada, que cada vez mais temos estudado e desvendado na comunidade científica.

E o assunto é coisa séria, a Sociedade Brasileira de Otologia (SBO) publicou recentemente no maior jornal de otorrinolaringologia brasileiro (BJORL) um artigo entitulado: "Perda auditiva e declínio cognitivo: porque o Brasil precisa de uma campanha nacional" e nele discutimos sobre o impacto da perda auditiva principalmente nos idosos, o baixo índice de diagnóstico e reabilitação da perda auditiva no nosso país e a desconhecimento da população sobre essa associação
(Artigo disponível em inglês na íntegra: https://doi.org/10.1016/j.bjorl.2026.101816).
Então, vamos conhecer alguns pontos importantes sobre perda auditiva e demência?
Perda auditiva pode aumentar o risco de demência?
Estudos mostram que indivíduos com perda auditiva não tratada apresentam maior risco de desenvolver declínio cognitivo e demência ao longo dos anos.
Estima-se que 20% da população mundial tenha algum grau de perda auditiva e esse número tende a aumentar com o envelhecimento populacional, o tratamento da perda auditiva por meio da reabilitação (uso de aparelhos auditivos) pode previnir até 8% dos casos (sendo o maior fator modificável) ou diminuir em até 3 anos o desenvolvimento da demência. Porém a realidade que vivemos hoje é outra, dados mundiais estimam que apenas 10% dos pacientes candidatos ao uso desses aparelhos fazem seu uso adequado (e isso são dados de países desenvolvidos, no Brasil estima-se que essa porcentagem seja ainda menor).
E esse risco não está apenas ligado à idade, mas à forma como o cérebro responde à falta de estímulo auditivo adequado.
Por que essa relação acontece?
Quando ouvir se torna difícil, o cérebro precisa gastar mais energia para interpretar sons, o que pode comprometer funções como memória, atenção e linguagem, além do isolamento social que vem como consequência da dificuldade de comunicação.
A conexão entre audição e cognição envolve alguns mecanismos principais:
Sobrecarga cognitiva: maior esforço para compreender a fala
Menor estímulo cerebral: redução da ativação de áreas auditivas no cérebro
Isolamento social: pacientes tendem a evitar conversas e evitar contato social, se isolando cada vez mais
Esses fatores, combinados ao longo do tempo, podem contribuir para o declínio cognitivo acelerado.
O problema: a perda auditiva é frequentemente ignorada
Um dos maiores desafios é que a perda auditiva costuma ser progressiva e silenciosa além de desvalorizada ou ignorada. Ela é vista como algo natural do envelhecimento e que não merece atenção ou algo a ser escondido dos outros, há ainda um estigma social muito grande relacionado a perda auditiva e isso precisa mudar.
Muitos pacientes demoram anos para procurar ajuda, mesmo apresentando sinais como:
Dificuldade para entender conversas
Necessidade de aumentar o volume da TV ou celular
Sensação de que as pessoas “falam baixo”
Cansaço ao interagir socialmente
Dificuldade para falar ao telefone
Nesse período, o cérebro já pode estar sofrendo os efeitos da falta de estímulo adequado.
(Há alguns outros posts no blog falando sobre o diagnóstico das perdas e como identificar, vale a pena a leitura)
Diagnóstico precoce: o ponto-chave na prevenção
O diagnóstico precoce da perda auditiva é uma das estratégias mais importantes para preservar a função cognitiva.
A avaliação auditiva permite:
Identificar alterações mesmo em fases iniciais
Intervir antes de impacto maior no cérebro
Melhorar a qualidade da comunicação e interação social
Reduzir fatores associados à demência
Ou seja: avaliar a audição cedo é uma forma de prevenção cognitiva.
Tratamento da perda auditiva pode ajudar?
Sim e esse é um dos pontos mais relevantes que precisamos saber.
O tratamento adequado, especialmente com aparelhos auditivos pode:
Restaurar o estímulo auditivo ao cérebro
Reduzir o esforço cognitivo
Melhorar interação social
Contribuir para manutenção das funções cognitivas
Pacientes que tratam a perda auditiva tendem a manter uma vida mais ativa, um fator importante na prevenção do declínio cognitivo, além de manter os estímulos e diminuir a sobrecarga cognitiva de quem tem perda auditiva sem reabilitação.
Quando procurar uma avaliação auditiva?
A avaliação é indicada especialmente para:
Pessoas acima de 40 anos
Qualquer dificuldade para ouvir ou entender fala
Queixas de memória ou atenção
Relatos de familiares sobre dificuldade auditiva
Exame de rotina: check-up auditivo
Exames como audiometria, emissões otoacústicas e BERA (PEATE) permitem um diagnóstico preciso e individualizado e cada um deles deve ser solicitado de acordo com sintomas e sinais que o paciente apresenta.
Avaliação auditiva: por onde começar
Se você percebe qualquer sinal de dificuldade auditiva ou comunicação, o ideal é procurar uma avaliação especializada com otorrinolaringologista e fonoaudióloga.
Um diagnóstico correto é o primeiro passo para um tratamento eficaz e isso pode fazer diferença não apenas na audição, mas também na preservação da saúde cerebral ao longo dos anos.
Ouvir bem é mais importante do que parece
A relação entre perda auditiva e demência reforça uma mudança importante:
Audição não é apenas qualidade de vida é saúde cognitiva.
Diagnosticar e tratar precocemente pode ser um passo simples, mas com impacto profundo na autonomia, memória e bem-estar.
Agende sua avaliação auditiva
Percebe sinais de perda auditiva ou quer fazer um check-up preventivo?
Agende sua avaliação auditiva completa em São Paulo na Audio In e cuide da sua audição e da sua saúde cognitiva desde agora.
Mariana Favoretto
Otorrinolaringologista
Otologia e Base Lateral do Crânio
CRMSP 199194 / RQE 103781




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